quinta-feira, 25 de abril de 2013

Re-ligar o ser humano à natureza

O crescimento demográfico mundial e as relações de produção capitalistas caracterizam um sério processo de degradação da natureza nas sociedades modernas. Por Elza Neffa* Com o crescimento demográfico mundial e com o desenvolvimento das forças produtivas, ocasionados pelas relações de produção capitalistas, os reversos da natureza tornaram-se mais sérios nas sociedades modernas. Na era industrial, o desenvolvimento antropossocial gerou maior incidência de destruição de matas e associações vegetais, de redução da fauna e de reservas hídricas, de empobrecimento e esterilização da terra, caracterizando um processo de degradação da natureza. Nos últimos séculos, uma ótica utilitarista avolumou-se ancorada na idéia de função econômica, ampliando a lógica capitalista como padrão de análise, seja em relação ao entendimento do crescimento demográfico, seja face aos recursos naturais e ao seu uso. Desta forma, o reconhecimento da lógica de mercado vem se impondo nas sociedades e qualificando de irracional todo o comportamento que não cria estratégias de otimização dos recursos naturais e maximização dos lucros. Com o modo de produção capitalista, o processo de produção material é cada vez mais guiado pelo processo de acumulação do capital, seguindo valores, códigos e representações daqueles que o detém, em detrimento do desenvolvimento humano. A busca da valorização do lucro acentua as representações orgânicas que separam o ser humano da natureza, numa ótica reducionista que pressupõe as forças naturais como um fator externo ao processo histórico. Essa visão, que atrela os indicadores sociais aos econômicos, fomenta uma postura arrogante no homem moderno, que se vê como centro ontológico do Universo, entendendo a realidade na razão direta de sua capacidade de dominar e manipular a natureza e os outros homens, separando a ciência do sagrado, o saber da sabedoria e trazendo o que Max Weber chama de “desencantamento do mundo”. Este olhar desencantado do mundo reduz a natureza à categoria de mercadoria, onde a floresta perde seus encantos para ser reduzida aos seus aspectos produtivos. A compreensão moderna de que o homem é tanto mais livre quanto mais ele domina o meio natural circunscreve-o à visão do Ser como mera objetividade e da natureza como um conjunto de objetos passíveis de manipulação para obtenção de produção e lucro. A cisão do real em duas instâncias: um sujeito, critério de medida de todas as coisas, e um objeto, com a função de servir ao ego em torno do qual gira, serve aos interesses da dominação e controle preconizados pela civilização moderna e contribui para o processo de alienação do que constitui a humanidade do homem, para a negação da realidade enquanto totalidade multidimensional e para a perda da unidade entre consciência religiosa e experiência cósmica, e finalmente à recusa de qualquer horizonte de transcendência. Ao analisar o lugar do homem no mundo, o filósofo francês Michel Serres, em sua obra O Contrato Natural, ressalta que a violência é menos resultado de uma ação individual do que coletiva. Evidencia que, em tempos de integração à terra através de atividades produtivas agrícolas, o sujeito desaparecia, dando lugar a uma imersão no estar-no-mundo, a uma ligação um-com-outro, que enunciava um “nós”, escutava a linguagem do ser e do tempo e ouvia o anjo que passava anunciando o “horário do verbo”, caracterizando as convencionais filosofias campesinas, nobres e dignas. Hoje, sua existência em conjunto, reunindo-se pelo contrato social, enclausura-o em espaços citadinos fechados, provocando uma perda do mundo na medida em que encara o essencial como “o que aconteceu do lado de dentro, em palavras, jamais com as coisas”, transformando-o num “grande animal” que aumentado em tamanho, é reduzido em pensamento. Vivendo como animais coletivos, os homens desindividualizam-se no processo de globalização contemporânea. Ao apontar a política como confirmação de uma cultura que perdeu o mundo e erradicou a memória do longo prazo, das tradições milenares, das experiências acumuladas pelas culturas, Serres situa o homem no tempo reduzido ao instante que passa, no prazo imediato do qual se tira o essencial do poder de cada um, salientando ser este o tempo da destruição, pois a construção exige o longo e o lento processo, inclusive da formação ético-cultural. Na perspectiva de refutar a idéia que coloca o homem como senhor da natureza, a fim de que a humanidade consiga fazer a simbiose e não morrer, na encruzilhada em que se encontra, faz-se mister uma relação de comunhão e de amor com o Outro e com a Natureza na busca da recuperação dos elos que prendiam o homem ao mundo e ao tempo e que foram perdidos, a fim de resgatar a visão espiritual, capaz de efetivar o novo “contrato natural”. * Professora da Faculdade de Educação da UERJ e coordenadora do Projeto de Educação Ambiental do Programa de Despoluição da Baía de Guanabara (PEA/PDBG) e do Núcleo de Referência em Educação Ambiental da UERJ. E-mail: nuredam@uerj.br. Artigo publicado pelo Jornal Terceiro Tempo em junho de 2003